Em quem VOCÊ votará em 2 de outubro?

Últimas Noticias
recent

A renúncia de Bento XVI



A renúncia de Bento XVI: um precedente evangélico
Jornal do BrasilMaria Clara Lucchetti Bingemer*


Eram oito horas da manhã quando o telefone tocou. Em pleno Carnaval, descansando fora do Rio, eu dormia até mais tarde. A voz vinha de longe, e lentamente ativava as sinapses de meu cérebro. Quando escutei “a renúncia do papa de Bento XVI ao cargo”, o choque de adrenalina me fez acordar de vez. Pedi um tempo para me inteirar da situação. E fui verificar. Era verdade.
Em meio às plumas e paetês das escolas de samba, a notícia da renúncia do papa começou a ganhar volume e espaço. E a assombrar a todos! Nunca antes...jamais se viu...como pode ser...por quê? Lembrei-me de outras ocasiões, quando minha mãe me avisou: “O papa morreu”. E eu lhe disse que se enganava por pensar que se referia a Paulo VI. E era João Paulo I, o papa Sorriso. Ali também havia a surpresa e o sabor do inesperado. Ali também experimentávamos perplexidade.
Bento XVI não morreu. E isto faz toda a diferença. Foi um papa lúcido e em plena posse de suas faculdades mentais que anunciou na Praça São Pedro sua decisão inabalável de renunciar ao cargo de bispo de Roma e de sucessor de Pedro. Marcou data e prazo: 28 de fevereiro. Agradeceu a todos que o ajudaram em seus quase oito anos de papado, pediu perdão pelos erros e...entregou a Igreja nas mãos de seu Supremo e Único Pastor, Jesus Cristo, assim como ao cuidado maternal de sua mãe Maria.
Surpresa como todos diante do inesperado gesto de Bento XVI, aos poucos fui sentindo o peso e a importância desta decisão e deste anúncio. Parece-me de uma grandeza impressionante, de uma coragem enorme e de uma inspiração evangélica. Nunca durante este pontificado senti tão presentes o sopro e o impulso do Espírito como neste anúncio dado na Praça de São Pedro no último dia 11 de fevereiro.
A decisão livre e minuciosamente refletida e pensada de Bento XVI pode ter um enorme significado para a Igreja. Porque se o papa pode deixar seu cargo por motivos de idade, por sentir que lhe faltam as forças e o vigor físicos para exercer como deveria a posição que ocupa, a mesma interpelação se abre para outros segmentos eclesiais. Por que não teriam de fazer o mesmo os superiores das ordens e congregações religiosas masculinas e femininas? Por que se eternizam em cargos de chefia tantos coordenadores de movimentos leigos que não se mostram dispostos a dar um passo para liberar o caminho aos mais jovens?
Antes do papa, a Igreja havia já assistido à renúncia do superior geral dos jesuítas, o holandês Peter Hans Kolvenbach. Depois de 25 anos à frente da Companhia de Jesus, a ordem mais forte da Igreja, padre Kolvenbach apresentou sua renúncia. Já vinha tentando fazê-lo desde o pontificado de João Paulo II, que nunca a aceitou. No entanto, depositou-a nas mãos do papa Ratzinger, que entendeu perfeitamente seu desejo e sua decisão.
O “Papa Negro” – como é chamado o geral dos jesuítas – ao renunciar prenunciava esta outra renúncia, a do papa sucessor de Pedro. Em ambos a mesma atitude de fundo: liberdade interior e desapego do poder. Sair porque vê conscientemente seus limites. Afastar-se do cargo porque reconhece humildemente não ter condições objetivas de exercê-lo. Deixar o poder que lhe foi outorgado pelo colégio cardinalício e reconhecido por toda a Igreja nas mãos desse mesmo colégio para que escolha um sucessor.
No dia 28 de fevereiro, Bento XVI se retirará à sede de Castelgandolfo, no sul de Roma, e deixará o governo após quase oito anos de papado. Depois de eleito seu sucessor, viverá na cidade do Vaticano, dedicando-se àquilo que ama fazer: ao estudo, à escrita, à oração.
Com sua atitude nitidamente na contramão da lógica do poder, Bento XVI abre o caminho a uma reformulação do papado, que já deveria há muito ter sido feita na Igreja Católica. Seu sucessor, seja ele quem for, encontrará esse precedente aberto, e isso certamente deverá impactar em seu comportamento, em seu estilo de governar e na compreensão que terá de seu cargo e ministério.
Com seu gesto extremamente humilde e realista, Bento XVI deixa a autoridade que lhe foi conferida como papa, mas permanece investido de outra autoridade, mais evangélica, mais inspirada e inspiradora, mais perene: a autoridade do testemunho. Foi um confessor – como os do cristianismo primevo – aquele que, fragilizado pela idade e pelo cansaço, com a voz tênue e quase inaudível, reconheceu seus limites e abdicou do poder que detinha. Assim entrava na esfera daquela humildade que deve ser mais forte e presente ainda nos que detêm cargos de mando, tal como ensinou o Mestre Jesus de Nazaré.
Se faltasse ainda algo para convencer-nos da beleza do acontecimento que ungiu a Igreja inteira com a renúncia do papa, talvez fosse importante prestar atenção ao respeito atento e admirativo que esta despertou naqueles que mais divergiam de suas ideias e de seu magistério. O teólogo brasileiro Leonardo Boff, por exemplo, declarou que a atitude de Bento XVI merece toda admiração e respeito. Assim também o teólogo suíço Hans Küng, com quem Ratzinger teve alguns embates bem conhecidos: "A decisão de Bento XVI merece grande respeito, é legítima, compreensível e também corajosa. Nunca esperei que este papa conseguisse me surpreender, algum dia, de maneira tão positiva".
A nós, que somos espectadores e testemunhas deste evento histórico-teologal, que a atitude do papa nos inspire e ilumine nesta Quaresma, que agora começamos. 

Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, é autora de 'Um rosto para Deus' (Ed. Paulus) e de 'Crônicas de cá e de lá' (Ed. Subiaoo), que podem ser encomendados diretamente à escritora. – agape@puc-rio.br
 

Que tipo de Papa? - As tensões internas da Igreja atual
Jornal do Brasil Leonardo Boff*

Não me proponho apresentar uma balanço do pontificado de Bento XVI, coisa que foi feito com competência por outros. Para os leitores talvez seja mais interessante conhecer melhor uma tensão sempre viva dentro da Igreja e que marca o perfil de cada papa. A questão central é esta: qual a posição e a missão da Igreja no mundo?
Antecipamos dizendo que uma concepção equilibrada deve assentar-se sobre duas pilastras fundamentais: o Reino e o mundo. O Reino é a mensagem central de Jesus, sua utopia de uma revolução absoluta que reconcilia a criação consigo mesma e com Deus. O mundo é o lugar onde a Igreja realiza seu serviço ao Reino e onde ela mesma se constrói. Se pensarmos a Igreja demasiadamente ligada ao Reino, corre-se o risco de espiritualização e de idealismo. Se demasiadamente próxima do mudo, incorre-se na tentação da mundanização e da politização. Importa saber articular Reino-Mundo-Igreja. Ela pertence ao Reino e também ao mundo. Possui uma dimensão histórica com suas contradições e outra transcendente.
Como viver esta tensão dentro do mundo e da história? Apresentam-se dois modelos diferentes e, por vezes, conflitantes: o do testemunho e o do diálogo.
O modelo do testemunho afirma com convicção: temos o depósito da fé, dentro do qual estão todas as verdades necessárias para a salvação; temos o sacramentos que comunicam graça; temos uma moral bem definida; temos a certeza de que a Igreja Católica é a Igreja de Cristo, a única verdadeira; temos o Papa que goza de infalibilidade em questões de fé e moral; temos uma hierarquia que governa o povo fiel; e temos a promessa de assistência permanente do Espírito Santo. Isto tem que ser testemunhado face a um mundo que não sabe para onde vai e que por si mesmo jamais alcançará a salvação. Ele terá que passar pela mediação da Igreja, sem a qual não há salvação.
Os cristãos deste modelo, desde Papas até os simples fiéis, se sentem imbuídos de uma missão salvadora única. Nisso são fundamentalistas e pouco dados ao diálogo. Para que dialogar? Já temos tudo. O diálogo é para facilitar a conversão e é um gesto de civilidade.
Bento XVI negou o título de “Igreja” às igrejas evangélicas, ofendendo-as duramente O modelo do diálogo parte de outros pressupostos: O Reino é maior que a Igreja e conhece também uma realização secular, sempre onde há verdade, amor e justiça; o Cristo ressuscitado possui dimensões cósmicas e empurra a evolução para um fim bom; o Espírito está sempre presente na história e nas pessoas do bem; Ele chega antes do missionário, pois estava nos povos na forma de solidariedade, amor e compaixão. Deus nunca abandonou os seus e a todos oferece chance de salvação, pois os tirou de seu coração para um dia viverem felizes no Reino dos libertos.
A missão da Igreja é ser sinal desta história de Deus dentro da história humana e também um instrumento de sua implementação junto com outros caminhos espirituais. Se a realidade tanto religiosa quanto secular está empapada de Deus devemos todos dialogar: trocar, aprender uns dos outros e tornar a caminhada humana rumo à promessa feliz, mais fácil e mais segura.
O primeiro modelo do testemunho é da Igreja da tradição, que promoveu as missões na África, na Ásia e na América latina, sendo até cúmplice em nome do testemunho da dizimação e dominação de muitos povos originários, africanos e asiáticos.
Era o modelo do Papa João Paulo II que corria o mundo, empunhando a cruz como testemunho de que ai vinha a salvação. Era o modelo, mais radicalizado ainda, de Bento XVI que negou o título de “Igreja” às igrejas evangélicas, ofendendo-as duramente; atacou diretamente a modernidade pois a via negativamente como relativista e secularista. Logicamente não lhe negou todos os valores mas via neles como fonte a fé cristã. Reduziu a Igreja a uma ilha isolada ou a uma fortaleza, cercada de inimigos por todos os lados contra os quais importa se defender.
O modelo do diálogo é do Concílio Vaticano II, de Paulo VI e de Medellin e de Puebla na América Latina. Viam o cristianismo não como um depósito, sistema fechado com o risco de ficar fossilizado, mas como uma fonte de águas vivas e cristalinas que podem ser canalizadas por muitos condutos culturais, um lugar de aprendizado mútuo porque todos são portadores do Espírito Criador e da essência do sonho de Jesus.
O modelo do diálogo se faz urgente para a Igreja sair da crise que atingiu seu ponto de honra: a moralidade e a espiritualidade O primeiro modelo, do testemunho, assustou a muitos cristãos que se sentiam infantilizados e desvalorizados em seus saberes profissionais; não sentiam mais a Igreja como um lar espiritual e, desconsolados, se afastavam da instituição mas não do Cristianismo como valor e utopia generosa de Jesus.
O segundo modelo, do diálogo, aproximou a muitos pois se sentiam em casa, ajudando a construir uma Igreja-aprendiz e aberta ao diálogo com todos. O efeito era o sentimento de liberdade e de criatividade. Assim vale a pena ser cristão.
Esse modelo do diálogo se faz urgente caso a instituição-Igreja quiser sair da crise em que se meteu e que atingiu seu ponto de honra: a moralidade (os pedófilos) e a espiritualidade (roubo de documentos secretos e problemas graves de transparência no Banco do Vaticano).
Devemos discernir com inteligência o que atualmente melhor serve à mensagem cristã no interior de uma crise ecológica e social de gravíssimas consequências. O problema central não é a Igreja mas o futuro da Mãe Terra, da vida e da nossa civilização. Como a Igreja ajuda nessa travessia? Só dialogando e somando forças com todos.
*Leonardo Boff, Teólogo e Filósofo, é autor de Igreja: carisma e poder, livro ajuizado pelo então Cardeal Joseph Ratzinger.

lagoarealnews

lagoarealnews

Nenhum comentário:

Lagoa Real News. Tecnologia do Blogger.