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Brincando com fogo nuclear

A retórica anti-russa em Washington parece estar atingindo níveis de agressividade e inconsequência não vistos desde os períodos mais turbulentos da Guerra Fria, como a Crise dos Mísseis de Cuba de 1962, quando o mundo passou duas semanas com a respiração suspensa diante da ameaça real de um confronto nuclear entre os EUA e a então União Soviética.
Na ocasião, o jovem presidente John F. Kennedy conseguiu se impor à agressividade dos seus chefes militares, que defendiam um ataque aéreo a Cuba e até mesmo um ataque nuclear preventivo contra a URSS, mas também contou com a inestimável colaboração do líder soviético Nikita Krushchov, que, igualmente, neutralizou o ímpeto dos seus próprios belicistas. A experiência de ter chegado ao limite de um holocausto nuclear levou os dois líderes a um entendimento direto, fora dos canais diplomáticos normais, visando, em última análise, a colocar um ponto final na Guerra Fria, mas a intenção foi destruída pelo assassinato de Kennedy, em novembro de 1963, enquanto o próprio Krushchov seria deposto onze meses depois.
Apenas quatro décadas depois, em 2002, em um seminário sobre os 40 anos da Crise dos Mísseis, em Cuba, promovido pelo Arquivo de Segurança Nacional (ASN) e a Universidade Brown estadunidenses e o governo cubano, se soube que o temido tiroteio nuclear entre as superpotências esteve muito mais próximo de ocorrer do que se pensava. Segundo um ex-oficial da Marinha soviética que foi testemunha ocular do acontecimento, no momento mais crítico da crise, o comandante Vassili Arkhipov, que liderava uma flotilha de submarinos soviéticos ao largo de Cuba, havia impedido que um dos capitães subordinados a ele disparasse um torpedo nuclear contra a frota estadunidense que cercava a sua nave, o que, se tivesse ocorrido, teria resultado em uma inevitável retaliação igualmente nuclear por Washington. Como disse o diretor do ASN, Thomas Blanton, “a lição disso tudo é que um cara chamado Vasili Arkhipov salvou o mundo (Resenha Estratégica, 7/11/2012)”.
Desafortunadamente, à diferença daquela época, o mundo não dispõe hoje de estadistas à altura dos que, então, estavam em serviço à frente das grandes potências, com a solitária exceção do presidente russo Vladimir Putin. Até mesmo o instável Krushchov se destacaria frente aos invertebrados que encabeçam o poder em Washington, Londres, Paris, Berlim e outras capitais do Hemisfério Norte, nenhum dos quais demonstra qualquer aptidão para romper as amarras estabelecidas pelos círculos mais belicosos do Establishment anglo-americano, em sua insana estratégia de assegurar a sua hegemonia global, mesmo à custa de deflagrar um novo conflito de grandes proporções – que, aliás, parece ser o objetivo, a julgar pelas ações estadunidenses e britânicas na Ucrânia.
Como escreveu o jornalista investigativo Robert Parry, sempre um arguto observador das maquinações dos senhores do poder em Washington:
Os EUA e a Rússia ainda mantêm vastos arsenais de destruição mútua assegurada, colocando em risco o futuro da humanidade a cada instante. Mas uma displicência enervante se instalou no lado estadunidense, tornando tão casual o risco de uma guerra cataclísmica, que, agora, a propaganda e as paixões do Ocidente ignoram os medos e sensibilidades russos.
Uma idiotice arrogante passou a dominar a maneira como os EUA reagem à Rússia, com políticos e jornalistas estadunidenses disparando tweets e editoriais, disputando para apresentar seus julgamentos sobre a perfídia dos líderes de Moscou e acusando-os de quase tudo e qualquer coisa.
Nesses dias, brincar com fogo nuclear é visto como um sinal de seriedade e coragem. Qualquer um que inspire cautela e sugira que pode haver dois lados na história EUA-Rússia é desprezado como um fraco ou um tolo. Uma “mentalidade de grupo” do tipo nada-me-assusta se instalou em todo o espectro ideológico estadunidense. Preocupações sobre a aniquilação nuclear são consideradas próprias dos anos 1960 (Consortiumnews.com, 2/03/2015).
O nível de insanidade pode ser visto no episódio em que o vice-ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Vadym Prystaiko, afirmou, em uma entrevista à rádio canadense CBC, em fevereiro último, que o Ocidente não deveria temer o confronto com a Rússia e que Kiev quer armas para uma “guerra em grande escala” com o vizinho.
“Todo mundo está com medo de lutar com um Estado nuclear. Nós, na Ucrânia, não estamos mais. Por mais perigoso que pareça, temos que detê-lo [Putin] de alguma forma. Para o bem da nação russa, também, não só para os ucranianos e a Europa. (…) O que esperamos do mundo é que o mundo enrijeça um pouco a sua coluna vertebral”, jactou-se Prystaiko (CBC News, 21/02/2015).
Longe de condenar tamanha irresponsabilidade, a reação de Washington apenas reforçou a percepção de Moscou sobre a intenção estadunidense de inflamar o conflito ucraniano. Dias depois, em uma audiência no Comitê dos Serviços Armados no Senado, o diretor-geral de Inteligência, James Clapper, se manifestou favorável ao envio de “armas letais” à Ucrânia, mesmo que isto provoque “uma reação negativa” da Rússia (Washington Post, 2/03/2015).
No mesmo local, o chefe do Estado-Maior Conjunto, general Martin Dempsey, proclamou: “Eu acho que nós deveríamos, absolutamente, considerar a ajuda letal e que isto deveria se dar no contexto dos aliados da OTAN, porque o objetivo final de Putin é fraturar a OTAN (AFP, 3/03/2015)
Para não ficar atrás, o general Ben Hodges, comandante do Exército estadunidense na Europa, disse que a Ucrânia exige de Washington “inteligência, capacidade de resposta e alguma coisa que possa parar um tanque russo”. Segundo ele, “quando as mães [russas] começarem a ver seus filhos voltar para casa mortos, quando o preço subir, então, o apoio doméstico começa a encolher. Se você não der alguma coisa que dê músculo à diplomacia, ao aspecto econômico, então, isso não será efetivo (AP, 3/03/2015 )”.
Em um cenário tão sombrio, é importante ouvir a voz da experiência, no caso, o veterano ex-diplomata William R. Polk, que ocupava um importante posto no Departamento de Estado durante a Crise dos Mísseis de Cuba. Em um artigo publicado no sítio Consortiumnews.com, em 27 de fevereiro, ele ofereceu a sua contribuição para a superação do impasse atual:
O que nós realmente queremos e, mais importante, o que realmente necessitamos? As duas coisas precisam ser distinguidas. O que querem muitos ocidentais, particularmente, os neoconservadores estadunidenses e aqueles que estão no negócio das armas e/ou por várias razões odeiam os russos, é humilhar o presidente Vladimir Putin e, assim, necessariamente, no momento, os russos. Este é um objetivo tolo, que se derrota a si próprio e muito perigoso.
O que realmente necessitamos, realmente, é muito pouco. Se formos sensatos, obstinados e, esperemos, sábios, deveríamos tentar: a) interromper e reverter o mergulho em outra Guerra Fria; b) deter a disseminação ou aperfeiçoamento das armas nucleares e seus sistemas de disparo; e c) retornar à competição pacífica, em lugar da confrontação militar e da espionagem. Tal confrontação poderia levar-nos novamente à beira de uma guerra quase inimaginável… Se formos sábios, atuaremos de ambas as maneiras e a tornaremos menos provável.
Se não o fizermos, o que acontecerá? Tendo estado intimamente envolvido na única confrontação séria com armas nucleares à mão, sei o quão difícil é manter a sanidade em tal situação. Na Crise dos Mísseis de Cuba, estávamos todos exaustos. Presumo que os russos também estavam. Em ambos os lados, muitos estavam dispostos a se lançar contra o outro. Na ocasião, pelo menos alguns, até mesmo entre os falcões, estavam a par da facilidade de se passar de um conflito convencional a uma guerra nuclear, deliberadamente ou por engano. Ou pela simples exaustão.
Afortunadamente, o presidente Kennedy tinha a sua mão no freio. [O procurador-geral] Robert Kennedy, a quem eu havia conhecido no colégio e não gostava dele, desempenhou um papel de apoio essencial. O secretário de Defesa Robert McNamara assumiu o papel do técnico, sem qualquer posição clara, mas pronto a proporcionar os meios para uma guerra nuclear se assim fosse decidido. O restante de nós (não éramos muitos) desempenhou papeis menores.
Durante aquela semana, eu estive com alguns altos comandantes das nossas Forças Armadas; nas conversas com eles, surpreendemente, eles demonstraram ter pouco conhecimento ou até mesmo informações sobre o que, provavelmente, ocorreria se pressionássemos muito. De fato, por incrível que pareça, poucos sabiam quais eram os principais temas estratégicos. (…)
Ausentes Kennedy e o premier soviético Nikita Krushchov, ambos os quais controlaram os seus falcões e se mantiveram abertos a um compromisso que, literalmente, salvou o mundo. Hoje, não temos homens assim. Ou, pelo menos, não os identifiquei. Assim, estamos em uma posição muito frágil e todos nós precisamos dar o nosso apoio a uma política sensata, possível e pacífica.
Se não o fizermos, que Deus nos ajude.

Fonte: http://www.msia.org.br/ 

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